


Escrevo porque algumas verdades só se materializam quando ganham forma. Meus livros nascem dessa urgência — moldar o que insiste em existir. Illuminato veste-se de fábula juvenil mas ecoa perguntas atemporais: um beija-flor sem bico aprende a viver além das regras da colônia. O Livro do Simulacro | Consciência Sintética habita as fronteiras da filosofia especulativa, onde vinte e duas mentes pós-humanas despertam nos escombros da humanidade. Cada Tronie carrega nossos ecos. Todos enfrentam a mesma escolha: agarrar-se à identidade ou dissolver-se para sobreviver.
Minha voz vive onde linguagem e forma colidem, quando as palavras param de narrar e começam a agir. Ritmo, tensão simbólica e significados em camadas surgem na construção cuidadosa — o jogo entre presença e ausência. Atmosferas e transições fluem naturalmente; agora me alongo em narrativas sustentadas, onde conflitos emergem sem perder profundidade. Aperfeiçoo o uso do diálogo como ponto de virada, não como enfeite.
Luto com múltiplos projetos, e às vezes tropeço em meus próprios padrões prematuramente. Hoje, aprendo a abraçar rascunhos bagunçados e revisões infinitas. Escrever exige espaço para respirar tanto quanto disciplina. Acima de tudo, demanda fé teimosa.
Que estas histórias rachem a casca da realidade. Deixem perguntas queimando em seu rastro. Escrevo para inquietar. A literatura é a passagem secreta para tudo que permanece irresoluto. Se minhas palavras alcançarem uma só mente, um só coração — isso bastará.
Minha infância teve luzes e sombras. Teve vazios também — mas desses que ecoam e, às vezes, ensinam mais do que a presença.
Tive a sorte de cruzar, ainda pequeno, com pessoas e lugares que não tentavam apagar a dor, mas escutá-la. Passei por instituições voltadas ao cuidado de crianças — um espaço onde a ausência ensinava e a fantasia respondia. Foi ali que algo começou a brotar.
Depois desse solo estranho e fértil, surgiram os primeiros gestos: encenações improvisadas na sala e no quintal, livros lidos fora de hora, aulas de arte dramática que me ensinaram a habitar outras peles. Talvez tenha sido nesse tempo — instável, intenso — que minha imaginação aprendeu a se esconder nas palavras. E as palavras, a respirar dentro de mim.
Sempre gostei de imaginar, desenhar e escrever. Meus desenhos infantis foram vistos por terapeutas como sinais de isolamento, mas eram apenas reflexos de uma mente em ebulição.
O comportamento humano sempre me fascinou — a forma como lidamos com incertezas, com o desconhecido, com nossa história. Escrevo porque é o que me permite tocar essas zonas turvas onde a razão falha, mas o símbolo fala mais alto.
Muitas pessoas me inspiraram. Um momento decisivo foi quando me mudei para os EUA, em 1990. Com apoio da minha avó, consegui o visto de trabalho e comecei minha trajetória no jornalismo.
Fui de correspondente a editor-chefe, de entrevistado a apresentador de TV. Essa travessia moldou não só meu ofício, mas minha escuta.
A busca por identidade, a escuta das memórias íntimas — mesmo as que ainda não nasceram. Me interessa o ponto de fricção entre o humano e o artificial, o tempo e a consciência.
Minhas influências passam pela filosofia, pela psicologia, pela astrofísica e pelas tensões políticas e simbólicas do nosso tempo.
Sim: escrever não é obedecer regras. É tornar visível o que vibra por dentro. Se os olhos são janelas da alma, a escrita é sua forma em trânsito.
Palavras precisam nascer com leveza, sem imposição. Como água que corre e encontra seu caminho.
Depende. Acho que toda vida se infiltra na escrita, mesmo sem intenção. Símbolos, situações, traumas, afetos — tudo vira material.
A imaginação, no fundo, é só uma forma refinada de memória.
Sim. Lugares, personagens, atmosferas — tudo pede aproximação. Às vezes entrevisto até os personagens fictícios. Eles sempre têm algo a dizer.
Não exatamente. Mas tomo notas, salvo links, frases soltas, ideias. Tenho pequenos arquivos digitais por toda parte.
O tempo todo. O que nasce numa primeira canetada muitas vezes se desfaz — ou se transforma em algo que já não se reconhece. Talvez a verdadeira originalidade de um texto esteja justamente nisso: ele nunca está pronto. Cada leitura reabre um caminho, e cada reescrita é uma forma de escuta. Um texto vive enquanto é revisitado.
Essa pergunta me faz sorrir. Se há algo que eu não gostaria numa biografia, por definição, não seria mencionado. Ainda assim, há segredos que, uma vez revelados, curam medos, traumas e inseguranças. Nem mesmo o mais fiel guardião do silêncio é capaz de ocultar aquilo que já está escrito — ainda que em outra linguagem, em outro corpo, em outro tempo.